Fator de correção e fator de cocção: como fichar uma preparação sem errar a conta
As duas correções que separam peso bruto, peso líquido e peso pronto, com exemplo numérico e o passo a passo para fichar a preparação da casa do paciente.
A palavra “arroz” aparece três vezes numa mesma prescrição e significa coisas diferentes em cada uma: o que se compra, o que vai na panela e o que está no prato. Quando essas três não são separadas na hora da conta, o erro que sai não é de dez por cento — é de duas ou três vezes.
Fator de correção e fator de cocção existem para fazer essa separação. Um liga o que se compra ao que vai à panela. O outro liga o que vai à panela ao que está no prato.
Três pesos, e nenhum deles é intercambiável
Peso bruto é o alimento como ele chega: abacaxi com casca e coroa, frango com osso e pele, brócolis com talo.
Peso líquido é o que sobra depois da faca: só a polpa, só a carne, só o que vai ser usado.
Peso pronto é a preparação depois do fogo, quando ela já ganhou ou perdeu água.
O fator de correção é a ponte entre bruto e líquido. O fator de cocção é a ponte entre cru e pronto. Um cálculo sem essas duas pontes trata os três pesos como se fossem o mesmo, e é aí que a conta quebra.
Fator de correção: o que sobra depois da faca
Fator de correção é o peso bruto dividido pelo peso líquido. Como sempre se perde alguma coisa, ele é sempre maior ou igual a 1.
Um abacaxi de 1.400 g que rendeu 700 g de polpa tem fator de correção 2,0. Se a prescrição pede 150 g de polpa, o paciente precisa comprar 300 g de abacaxi bruto. Um quilo de coxa com osso e pele que rendeu 600 g de carne limpa tem fator 1,67 — para 150 g de carne, 250 g de coxa.
Repare no que o fator de correção decide e no que ele não decide. Ele decide quanto comprar e quanto o paciente vai gastar. Ele não decide a energia do prato, porque a tabela de composição de alimentos já traz o valor da parte comestível.
Vale acrescentar o que quase nenhuma tabela de fatores diz: esse número não é constante. Ele muda com o lote, a época do ano, o tamanho da peça e com quem está aparando. Abacaxi pequeno rende proporcionalmente menos polpa que abacaxi grande. Duas pessoas limpam a mesma carne com resultados diferentes. Tabela publicada serve de ponto de partida; o número que entra na sua conta é o que você pesou.
Fator de cocção: o que muda no fogo
Fator de cocção é o peso pronto dividido pelo peso cru. Aqui ele pode ficar dos dois lados do 1.
| Preparação | Peso cru → peso pronto | Fator |
|---|---|---|
| Arroz branco | 100 g → 250 g | 2,5 |
| Feijão carioca | 100 g → 240 g | 2,4 |
| Macarrão | 100 g → 220 g | 2,2 |
| Peito de frango grelhado | 100 g → 70 g | 0,7 |
Os números da tabela são exemplos arredondados, do tipo que você confirma pesando a sua própria panela. O que importa é a leitura: grão e massa absorvem água e ficam mais pesados; carne perde água e fica mais leve. E, nos dois casos, a energia total praticamente não muda — o que muda é em quantas gramas ela está distribuída.
É exatamente isso que torna o erro tão grande. Cem gramas de arroz cozido são, em boa parte, água que entrou na panela. Cem gramas de arroz cru são arroz.
O tamanho do erro, com números
Suponha 150 g de arroz no prato do paciente.
Usando a linha do arroz cozido, a algo em torno de 130 kcal por 100 g, esses 150 g valem cerca de 195 kcal. Usando a linha do arroz cru, perto de 360 kcal por 100 g, os mesmos 150 g viram 540 kcal.
Quase três vezes a diferença, numa refeição, num item só. Repetido no almoço e no jantar, todos os dias, é a distância entre um plano que fecha e um plano que nunca fez sentido — sem que apareça erro nenhum na tela, porque não existe validação que perceba isso.
A regra que evita o problema é anterior à conta: decida em qual estado a prescrição é escrita e diga isso ao paciente. “Peso pronto, no prato” é o que a maioria das pessoas consegue executar, porque é o que elas conseguem pesar. “Peso cru” funciona para quem cozinha a própria comida e pesa antes. As duas são válidas; misturar as duas não é.
Fichar a preparação da casa, com a conta inteira
Fichar é transformar uma preparação em um alimento com composição conhecida por 100 g. O procedimento tem cinco passos e uma balança.
Da panela até o valor por 100 g
Pese os ingredientes já limpos
Peso líquido, um a um, antes de ir ao fogo. Anote tudo, inclusive o óleo e o tempero que tem energia.
Some a composição dos ingredientes
Use a mesma tabela para todos e some calorias, proteínas, carboidratos e gorduras do total cru. Água e sal não entram na soma.
Pese a preparação pronta
Tare a panela vazia antes de começar, ou transfira o pronto para um recipiente de peso conhecido. Esse número é o denominador de tudo.
Divida para 100 g
Divida cada total pelo peso pronto e multiplique por 100. O resultado é a composição da preparação por 100 gramas.
Pese uma porção usual
Uma concha, uma escumadeira, uma fatia. Pesada de verdade, na medida que aquela casa usa. É essa porção que vai virar medida caseira.
Um exemplo completo, com o arroz de domingo de uma família. Ingredientes crus e já limpos: 300 g de arroz, 20 g de óleo, 40 g de cebola e alho. Somando pela tabela, algo perto de 1.075 kcal do arroz, 180 kcal do óleo e 15 kcal do refogado — cerca de 1.270 kcal no total.
A panela pronta, pesada, deu 820 g. O fator de cocção dessa preparação é 820 ÷ 360, ou seja, 2,28. E a composição por 100 g é 1.270 ÷ 8,2, ou seja, cerca de 155 kcal por 100 g.
A escumadeira que essa família usa, cheia, pesou 110 g — 170 kcal por escumadeira.
Compare com a linha genérica de arroz cozido, a 130 kcal por 100 g: a diferença por porção parece pequena, uns 40 kcal. Multiplicada por duas porções diárias, sete dias por semana, ela vira mais de 500 kcal semanais que estavam no plano e não estavam na conta. É o óleo da panela, que a linha genérica não contém e o prato daquela casa contém todo dia.
Cadastrar o resultado sem estragar o que já existe
Feita a conta, ela vira um alimento seu. No cadastro de alimento personalizado do SimpleNutri, seis campos travam o salvamento — nome, categoria, calorias, proteínas, carboidratos e gorduras totais — e todos são por 100 g. É exatamente o número que você acabou de calcular.
Três detalhes que economizam retrabalho:
O sistema não calcula receita a partir dos ingredientes. Ele guarda o resultado. A soma é sua, feita uma vez, e depois disso a preparação aparece na busca como qualquer outro item.
A categoria já vem preenchida como Outros. Trocar leva dois segundos e evita que a sua ficha suma no meio da base quando você for filtrar daqui a três meses.
E o bloco de medidas caseiras é o que devolve tempo depois: cadastre ali a escumadeira de 110 g. Na hora de montar o cardápio, clicar na medida preenche as gramas sozinho, em vez de você digitar um número estimado toda vez.
Duas ressalvas sobre editar depois. Corrigir os valores de um alimento seu recalcula todos os cardápios que já o usam — ótimo quando você está consertando um erro, arriscado quando está adaptando o item para um paciente só; nesse caso, duplique e edite a cópia. E alimentos das tabelas do sistema, como os da TACO, abrem em modo somente leitura: para ter uma versão sua, o caminho também é duplicar.
Quando fichar e quando deixar quieto
Fichar uma preparação custa entre dez e vinte minutos, contando a pesagem. Isso só se paga na repetição.
Vale fichar o que volta: o arroz e o feijão que aquela casa faz toda semana, a marmita padrão do trabalho, o shake que o paciente já toma, a preparação regional que aparece em metade dos seus cardápios. Cada uma dessas fichas é feita uma vez e usada dezenas.
Não vale fichar o prato que apareceu numa consulta e não vai voltar, nem a receita que muda de composição toda vez que é feita. Para esses, a estimativa a partir dos ingredientes na hora resolve, e resolve mais rápido.
O critério, em uma pergunta: quantas vezes esse item vai entrar num cardápio seu nos próximos três meses? Menos de três, deixe quieto. Mais de dez, fiche hoje — é uma das poucas tarefas de consultório que devolve o tempo investido com juros, e é o tipo de coisa que faz a diferença entre montar cardápio no horário e montar cardápio à meia-noite.
Perguntas frequentes
O que é fator de correção?
É a relação entre o peso bruto do alimento, como ele chega da feira, e o peso líquido, o que sobra depois de descascar, aparar e retirar osso, semente, casca ou talo. Na forma mais usada em ficha técnica, fator de correção é peso bruto dividido por peso líquido, e por isso é sempre maior ou igual a 1. Ele serve para saber quanto comprar, não para calcular energia.
O que é fator de cocção?
É a relação entre o peso da preparação pronta e o peso dos ingredientes crus. Alimentos que absorvem água — arroz, feijão, massa, grãos — ficam mais pesados e têm fator maior que 1. Carnes e preparações que perdem água ficam mais leves e têm fator menor que 1. É esse fator que converte a quantidade prescrita no prato para a quantidade que vai à panela.
Qual erro acontece quando confundo peso cru com peso cozido?
O maior de todos, porque a diferença é de ordem de grandeza. Cem gramas de arroz cru e cem gramas de arroz cozido não são o mesmo alimento: a versão cozida é majoritariamente água. Prescrever "100 g de arroz" usando a linha do cru, com o paciente pesando o cozido no prato, entrega uma fração da energia planejada. O caminho inverso entrega quase o triplo.
Preciso calcular fator de correção para todo alimento?
Não. Para alimento comprado já limpo, congelado em cubos ou usado inteiro, o fator é 1 e não muda nada. Ele importa quando a perda é grande e variável: fruta com casca e caroço, hortaliça com talo, carne com osso e gordura aparada. Fora desses casos, calcular fator de correção é trabalho que não altera decisão nenhuma.
O fator de correção é o mesmo para todo mundo?
Não. Ele depende do lote, da época do ano, do tamanho da peça e de quem está com a faca na mão. Um abacaxi pequeno rende proporcionalmente menos polpa que um grande, e duas pessoas aparam a mesma carne de formas diferentes. Tabelas publicadas servem de referência inicial, mas o número que vale para o seu cálculo é o que você pesou.
Como faço a ficha de uma preparação da casa do paciente?
Pese os ingredientes crus e já limpos, some as calorias e os macros de cada um pela tabela que você usa, pese a preparação pronta na mesma balança e divida o total pelo peso pronto. O resultado é a composição por 100 gramas do prato. Anote também uma porção usual — uma concha, uma escumadeira, uma fatia — pesada de verdade, porque é essa que o paciente usa.
O SimpleNutri calcula a receita a partir dos ingredientes?
Não. O cadastro de alimento personalizado guarda o resultado, não faz a conta: você informa a composição por 100 gramas da preparação pronta e o sistema usa esse número em todos os cardápios em que o item aparecer. A soma dos ingredientes até o valor por 100 gramas é sua, feita uma vez. Depois disso a preparação vira um item de busca como qualquer outro.
Como cadastro a preparação com a medida caseira certa?
No cadastro de alimento personalizado existe um bloco de medidas caseiras, com dois campos por linha: a descrição e o peso em gramas. Cadastre a porção que o paciente realmente usa, pesada por você — "1 concha média" igual a 120 g, por exemplo. Depois, ao montar o cardápio, clicar na medida preenche as gramas sozinho, em vez de você digitar um número no olho.
Posso editar um alimento da TACO para corrigir um valor?
Não diretamente. Alimentos das tabelas do sistema abrem em modo somente leitura no SimpleNutri. O caminho é duplicar o item, o que gera uma cópia sua e editável com os mesmos valores, e ajustar a cópia. Vale lembrar de um efeito colateral: corrigir um alimento seu recalcula os totais de todos os cardápios que já usam aquele item.
Vale a pena fichar toda preparação?
Não. Fichar compensa quando a preparação se repete em vários cardápios ou volta toda semana no mesmo paciente: o arroz e o feijão da casa, o shake que ele já toma, a marmita padrão do trabalho. Preparação que apareceu uma vez não paga o tempo da conta. O critério prático é quantas vezes você vai reusar aquele item nos próximos três meses.
Continue por aqui
Como cadastrar um alimento personalizado
Os seis campos que travam o salvamento, como converter a tabela do rótulo para 100 g e para que servem as medidas caseiras quando você monta o cardápio.
Cardápios e alimentosA base de alimentos: TACO, TBCA, IBGE e as suas
Como buscar, filtrar por tabela e por tipo, duplicar e excluir alimentos na Base de Alimentos — e por que os itens da TACO abrem bloqueados para edição.
Cardápios e alimentosComo montar um cardápio no SimpleNutri
As três camadas do plano alimentar — calorias e macros, refeições e alimentos — com o que salva sozinho, o que precisa de clique e como entregar ao paciente.
Agenda e produtividadeComo parar de montar cardápio à meia-noite
Por que o trabalho invisível sempre cai na madrugada e as três frentes que o tiram de lá: dar horário a ele, reduzir o volume e definir uma janela de mensagens.