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Quanto tirar de pró-labore sem quebrar o consultório

Pró-labore é custo do negócio, não o que sobra no fim do mês. Como calcular o piso pelo seu custo de vida, o teto pelo que o consultório aguenta, e o que fazer quando não batem.

Dia 5, o dinheiro dos atendimentos já entrou. Você paga o aluguel da sala, o software, o contador, olha o saldo e transfere para a sua conta pessoal o que sobrou. O valor muda todo mês. É assim há dois anos.

Esse arranjo é o mais comum em consultório individual no Brasil, e é também o que faz um negócio doente parecer saudável. Enquanto o seu trabalho não entrar na conta como custo, o consultório vai fechar no positivo todo mês — no papel.

Pró-labore é conta a pagar, não é o que sobra

Pró-labore é a remuneração do seu trabalho dentro da empresa. Na prática, ele funciona como o aluguel: entra na despesa do mês, todo mês, no mesmo valor, tenha o consultório faturado bem ou mal.

A distinção que resolve quase tudo é entre pró-labore e distribuição de lucro. O pró-labore é fixo, mensal e paga o seu trabalho. O lucro é variável, sai depois que tudo foi pago e a reserva foi abastecida, e paga o risco de você ter aberto um consultório. Quando os dois viram uma transferência única no fim do mês, você perde a informação mais valiosa que o negócio tem para te dar: se ele consegue ou não consegue pagar o trabalho de uma nutricionista.

O piso: quanto você precisa para viver

O piso não tem nada a ver com o consultório. É o quanto sai da sua vida por mês. Suponha estes números, que são exemplo e não referência:

Item pessoal Valor mensal
Moradia R$ 1.800
Mercado e casa R$ 1.200
Transporte R$ 400
Plano de saúde R$ 500
Contas e assinaturas R$ 300
Reserva pessoal R$ 400
Piso R$ 4.600

Repare na última linha antes do total. Reserva pessoal é item de custo de vida, não é sobra. Se ela não estiver no piso, a primeira emergência doméstica vai voltar como saque na conta do consultório, e aí o negócio passa a financiar a sua casa sem que ninguém tenha decidido isso.

Abaixo do piso, o problema deixa de ser do consultório e passa a ser seu: fatura de cartão rolando, escolha de paciente feita por desespero, desconto dado porque você precisa do dinheiro esta semana.

O teto: quanto o consultório aguenta pagar

O teto vem do negócio, e a conta é uma subtração:

Linha Valor mensal
Receita média (12 meses) R$ 8.000
Custos fixos do consultório R$ 2.000
Impostos e taxas de pagamento R$ 700
Reserva do negócio (10%) R$ 800
Teto do pró-labore R$ 4.500

Três detalhes decidem se esse número é verdade ou ficção.

Média de doze meses, nunca a do melhor mês. Consultório de nutrição costuma ter meses fortes e meses fracos bastante previsíveis, e calcular a retirada em cima de janeiro é o jeito clássico de descobrir em junho que ela não cabe. Se você ainda não mapeou a sua curva, os meses fracos e como atravessá-los explicam como levantar isso com o próprio histórico.

Taxa de maquininha e de link de pagamento é custo, não detalhe. Parcelamento também. Um percentual pequeno sobre tudo que entra some da percepção e não some do extrato.

A reserva do negócio não é opcional. Ela é o que separa “mês fraco” de “crise”. Sem ela, qualquer imprevisto — o notebook que morreu, o mês em que três pacientes sumiram — vira redução de pró-labore, ou seja, vira problema seu.

Quando o piso não encontra o teto

No exemplo acima, o piso é R$ 4.600 e o teto é R$ 4.500. Faltam cem reais — e é exatamente nesse ponto que a maioria decide parar de olhar a planilha.

Não pare. A distância entre piso e teto é o diagnóstico do consultório, e ela tem quatro alavancas, em ordem de velocidade:

  1. Cortar custo do negócio. É a mais rápida e a de menor efeito. Sala menos dias por semana, ferramenta duplicada que você paga sem usar, marketing que não trouxe ninguém nos últimos seis meses.
  2. Cortar custo de vida, com prazo escrito. Legítimo por um semestre. Como estado permanente, é o consultório sendo subsidiado pela sua qualidade de vida.
  3. Subir preço. Efeito em semanas, e é a alavanca mais ignorada porque é a mais desconfortável. O ponto de partida é saber quanto custa a sua hora de verdade.
  4. Subir volume. A mais lenta e a mais cara, porque exige captação. Também é a única que resolve quando o preço já está correto.

Enquanto as alavancas não agem, a decisão é simples: pague o menor dos dois números e escreva no calendário a data em que vai revisar.

O que “tiro o que sobrar” custa

A retirada variável parece prudente. Ela é o contrário, por quatro motivos que se acumulam.

Esconde prejuízo. Um mês com R$ 6.500 de receita e R$ 2.700 de custos deixa R$ 3.800. Você transfere os R$ 3.800 e o extrato diz que o mês fechou no zero a zero. Com o pró-labore de R$ 4.500 lançado como despesa, o mesmo mês aparece como prejuízo de R$ 700 — que é a verdade, e é o número que faz você agir em julho em vez de dezembro.

Erra o preço. O cálculo do preço de consulta usa a sua retirada como insumo. Se ela é “o que sobrar”, o custo por hora fica indefinido, e o preço vira chute com aparência de método.

Transfere a instabilidade do negócio para dentro de casa. Mês bom vira gasto solto, mês fraco vira parcelamento. A oscilação do consultório, que é normal e administrável, passa a ser oscilação da sua vida, que não é.

Complica comprovação de renda. Aluguel, financiamento, limite de cartão. Extrato com transferência irregular de valores diferentes conta uma história pior do que a realidade.

Como pagar na prática

Quatro decisões, uma vez só

  1. Separe as contas

    Uma conta recebe os pacientes e paga os custos do consultório. A outra é sua. Enquanto for uma conta só, nenhum número acima é calculável.

  2. Defina valor e data

    O menor entre piso e teto, num dia fixo do mês. Escolha um dia depois da maior parte dos recebimentos, como o dia 5 ou o dia 10.

  3. Automatize a transferência

    Agendamento recorrente no banco. Transferência manual vira negociação consigo mesma todo mês, e você perde.

  4. Trate o excedente como lucro

    O que sobrar acima do pró-labore fica no caixa até a reserva estar completa. Depois disso, distribua trimestralmente, nunca mês a mês.

A separação das contas é a que mais gente pula e a que mais muda o resultado. Sem ela, faturamento, custo, pró-labore e o almoço de domingo moram no mesmo extrato, e nenhuma das contas deste artigo pode ser feita.

A regra para subir a retirada

Aumento de pró-labore não acompanha mês bom. Ele acompanha três condições simultâneas:

  • A reserva do negócio cobre três meses de custo fixo mais três meses de pró-labore.
  • A receita média dos últimos seis meses subiu em dois trimestres seguidos.
  • O valor novo cabe no teto recalculado com essa média nova.

Faltando qualquer uma, o excedente fica no caixa. Cumpridas as três, suba em degrau de dez por cento e reavalie no trimestre seguinte — subir direto para o teto elimina a folga que faz o teto existir.

Para isso funcionar, você precisa da receita mensal fechada em algum lugar que não seja a memória. Se as consultas e pacotes estão registrados como vendas, o acompanhamento de faturamento já entrega o histórico mês a mês, que é o único dado de que a revisão trimestral precisa.

O teste final é este: se o consultório não consegue pagar o seu pró-labore, você não descobriu que ele é caro demais. Descobriu a informação que faltava. Ela é desagradável, é acionável, e chega dois anos mais cedo quando o pró-labore está escrito na planilha em vez de ser o que sobrou na conta no dia 5.

Perguntas frequentes

O que é pró-labore e por que ele importa num consultório de uma pessoa só?

Pró-labore é a remuneração do trabalho de quem toca a empresa. Num consultório individual, ele importa porque é o único jeito de o seu próprio trabalho aparecer como custo na conta do negócio. Sem essa linha, o consultório sempre parece dar lucro, mesmo quando o que ele paga por mês de trabalho é menor do que você aceitaria receber de qualquer outra pessoa.

Qual é o valor mínimo de pró-labore que posso definir?

A regra geral é que, havendo retirada de pró-labore, ela não seja inferior ao salário mínimo vigente, porque é sobre esse valor que incide a contribuição previdenciária do sócio. O valor mais adequado ao seu caso depende do regime tributário da empresa e tem efeito no imposto que ela paga, então essa definição precisa passar pelo seu contador.

Pró-labore e distribuição de lucro são a mesma coisa?

Não. Pró-labore é fixo, mensal e remunera o seu trabalho — ele entra como despesa do mês, faturando bem ou mal. Distribuição de lucro é variável, sai depois que tudo foi pago e a reserva foi abastecida, e remunera o risco de ter aberto o negócio. As duas coisas têm tratamento tributário diferente e, na prática, servem para decisões diferentes.

Como calculo quanto o meu consultório aguenta pagar de pró-labore?

Pegue a receita média dos últimos doze meses e subtraia três coisas: os custos fixos do consultório, os impostos e taxas de pagamento, e a reserva do negócio (algo em torno de dez por cento da receita). O que sobra é o teto do pró-labore. Use média de doze meses, nunca a do melhor mês, porque a maioria dos consultórios tem meses fortes e fracos previsíveis.

Posso deixar de tirar pró-labore num mês fraco?

Pode acontecer, mas isso é sinal de que a reserva do negócio não existe ou está subdimensionada. O objetivo da reserva é justamente atravessar mês fraco sem mexer na retirada. Pular o pró-labore resolve o mês e piora o ano, porque a instabilidade do consultório passa direto para dentro de casa e você volta a decidir preço e agenda sob pressão de conta pessoal.

Atendo como pessoa física, sem CNPJ. Isso vale para mim?

O termo técnico muda — sem empresa não existe pró-labore, existe a sua retirada, e a tributação segue pelo carnê-leão. A disciplina é idêntica e talvez mais importante, porque sem CNPJ é mais fácil ainda misturar tudo numa conta só. Defina um valor fixo, transfira em data fixa e trate o que fica no caixa do consultório como dinheiro do consultório.

O pró-labore paga imposto?

Sim. Sobre o pró-labore incide contribuição previdenciária e, dependendo do valor, imposto de renda retido na fonte conforme a tabela vigente. A distribuição de lucro segue regra diferente. Como cada regime tributário trata isso de um jeito, o cálculo é do contador. O que cabe a você lembrar é que o custo do pró-labore para a empresa é maior do que o valor que cai na sua conta.

De quanto em quanto tempo devo revisar o valor?

A cada três meses, com um número só na mão: a receita média dos últimos seis meses. Suba o pró-labore quando a reserva do negócio já cobrir três meses de custo fixo mais três meses de retirada, quando essa média tiver subido em dois trimestres seguidos e quando o valor novo couber no teto recalculado. Suba em degraus de dez por cento, não direto para o teto.

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Perguntas frequentes

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